SANDRA HELENA DE SOUZA
Professora de Filosofia e Ética da UNIFOR
Rodrigo Pimentel é bom de títulos. O ex-capitão do BOPE (Batalhão de Operações Especiais) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, designado para acompanhar João Moreira Salles e Kátia Lund quando, em 1998, tomavam depoimentos de policiais militares para um documentário sobre a violência no Rio de Janeiro, acabou por dar o título do filme naquela ocasião: ‘Notícias de uma Guerra Particular’. É dele também o título de meu texto aí em cima.
Como Pimentel, eu também conversei com pessoas que viram o filme, inclusive policiais militares, e também me pareceu sintomático o pouco caso dado à tortura. A discussão está focada sobre a corrupção policial e o tráfico, bem como o bom-mocismo dos ongueiros da classe média, e a via de mão-dupla que alimenta as festas dos universitários drogaditos e dos bailes funks nos morros cariocas. 23 oficiais do BOPE moveram ação que visava impedir a exibição do filme nos cinemas por considerar que o filme compromete a integridade dos policiais, expõe estratégias militares sigilosas e causa danos morais a indivíduos que estão na ativa. Quase nada sobre o fato de que o filme apresenta o BOPE como uma polícia não-convencional, honestíssima, diga-se de passagem, (o que soa estranhíssimo) e violentíssima também.
“A sociedade aceita a tortura policial” diz Pimentel num misto de tristeza e resignação. E aceitamos mesmo. “É lamentável, mas funciona.”
O “USA Patriot Act”, promulgado pelo Senado americano no dia 26 de outubro de 2001 criou a figura dos ‘detainees’, suspeitos de atividades que ponham em perigo a ‘segurança nacional do Estados Unidos’, abolindo todo o estatuto jurídico desses indivíduos, que passam a ser juridicamente inomináveis e inclassificáveis, suas detenções e condições de sobrevivência ficando totalmente fora da lei e do controle do judiciário. Um fenômeno paradoxal situado entre o direito público e o fato político, entre a ordem jurídica e a vida, chamado de Estado de Exceção pelo filósofo italiano Giorgio Agambem. Para o filósofo, o estado de exceção acabou por se tornar a regra das modernas democracias sobretudo pela extensão dos poderes do executivo no âmbito do legislativo através da promulgação de decretos e disposições, constituindo- se assim como cria da tradição democrático-revoluci onária e não da tradição absolutista.
No estado de exceção, a lei pode suspender o império da Constituição, quando as circunstâncias obrigam a dar mais forças e poder de ação às forças armadas e à polícia militar. Vivemos na América Latina, na última quadra do século passado, experiências convergentes de ditaduras constitucionais.
Assim, o filme Tropa de Elite fala mais pelo que cala. O governador do Rio, que também assistiu à cópia pirata do filme, disse que sofreu “um choque de realidade”. Soa cínico. A rede Globo já sinalizou o interesse de tornar o filme série televisiva, o nosso 24 horas, Jack Bouer em versão tupiniquim. Soa hipócrita. Será interessante acompanhar qual das éticas apresentadas no filme vai ganhar mais pontos na discussão pública que o filme certamente vai provocar. Não sem estupefação, ouvi de uma moça pobre, moradora de favela de Fortaleza, que o filme lhe tinha feito ver o lado humano dos policiais. Soa trágico. O estado de exceção que germina como um ovo de serpente no Rio de Janeiro não acontece sem o beneplácito e vista grossa da elite a quem a tropa sustenta e protege com fidelidade e ferocidade caninas. A ironia maior é que no episódio retratado no filme a operação especial na qual está envolvido o Batalhão é a proteção de sua santidade, João Paulo II, na sua terceira viagem ao Brasil.









Polícia foi chamada pela direção da faculdade; manifestantes ficaram espremidos em um corredor e vários ficaram feridos.

Depois desta foto, da soltura do assassino Pimenta Neves, e da acusação por atacado de todos os acusados dessa lenda do mensalão na suprema corte do país, estamos órfãos de pai e mãe em matéria de justiça.