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10 de jul de 2009

Entrevista com coordenador da PCr, em Fortaleza

Igor Barreto, advogado e coordenador da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Fortaleza, foi ameaçado de morte no dia 26 de junho, por um agente penitenciário, ao término da etapa estadual da I Conferência Nacional de Segurança Pública. Na entrevista que concedeu à AnotE, ele esclarece o acontecido e denuncia a situação que gerou tal atentado a sua vida e ao trabalho realizado pela Pastoral Carcerária no Ceará. Ao mesmo tempo, Igor Barreto reafirma a importância do trabalho da Pastoral Carcerária e o seu compromisso com ele.

AnotE - O que de fato aconteceu no dia 26 de junho? Como se deu a ameaça por parte do agente penitenciário contra você?
Igor Barreto - Estávamos na etapa estadual da Conferência Nacional de Segurança Púbica. Essa etapa é eletiva para a Nacional, que será realizada em BSB entre os dias 27 e 30 de agosto. Levantei uma questão de ordem sobre a possibilidade de profissionais de segurança pública se candidatarem como membros da sociedade civil. Representantes do Ministério da Justiça esclareceram que não era possível. Então um agente penitenciário que estava nessa condição sentiu-se pessoalmente atingido por mim. Quando estava na fila de votação das propostas a serem enviadas para BSB e para a eleição de representantes, esse agente chutou-me o pé esquerdo e me ameaçou. Até então imaginei que ficaria por aí. Não quis denunciá-lo. Veja, que isso foi feito em pleno Centro de Convenções, à vista de todo mundo. Mas, ao terminar o trabalho, por volta das 17:30, o agente penitenciário estava do lado de fora do Centro, em uma moto, esperando por mim. De novo com palavras de baixo calão se dirigiu a mim. Segui o caminho para a Unifor, onde havia deixado o carro. Ele me seguiu. A certa altura, virei-me, ainda distante dele, para saber o que de fato queria ao seguir-me. Foi quando, ainda distante, deixou a mochila que trazia consigo sobre um banco, nos jardins da reitoria da Unifor, e sacou da arma. Quando o vi sacar da arma, inclinei a cabeça, fiz minha oração, entreguei a vida e senti que morreria. Então o vi colocar a arma na cintura e caminhar em minha direção. Então voltou a ameaçar-me até que sacou da arma, tocou-a na altura de meu estômago e agrediu-me com ela. Senti, pela segunda vez, que fosse atirar. Mas não disparou. Tentou imobilizar meu braço esquerdo. Chamou-me para briga. Não reagi. A certo momento, percebi a presença de vigilantes da Unifor, de quem busquei me aproximar. O agente também os percebeu e começou a afastar-se. Então pedi que o vigilante me acompanhasse. Encontramos o chefe de segurança da Unifor na frente da biblioteca. O Ronda do Quarteirão foi acionado. Retornei ao Centro de Convenções. Comuniquei o fato ao Major Plauto Ferreira, coordenador da etapa estadual, ao Major Juarez, PM e ao Cap. Edir, BM. O Major Juarez me acompanhou até o 2º Distrito, onde fiz o Boletim de Ocorrência. Esse foi o dia 26.

AnotE - Na sua avaliação, o que gerou tal agressão?
Igor Barreto - A insatisfação por não poder ser eleito representante para a etapa nacional em Brasília.

AnotE - Após o fato, houve algum posicionamento oficial da Secretaria de Segurança Pública?
Igor Barreto - Enquanto fazia o Boletim de Ocorrência, o Secretário de Segurança telefonou, depois de o Major Plauto comunicar o fato. Queria saber o que tinha ocorrido. Depois voltou a telefonar para transmitir algumas informações sobre o agente penitenciário. Na noite da sexta, o mesmo Major Plauto, junto com um representante do Ministério da Justiça, propôs uma mediação. Marcamos para segunda-feira pela manhã. Sobre isso gostaria de dizer alguma coisa. A ausência de posição oficial da Secretaria de Segurança se deveu à mediação. Nessa ocasião, o agente penitenciário e eu estivemos diante um do outro, na presença da mediadora, Professora Lilia Sales, e de algumas testemunhas. A condução desse momento levou a um pedido de perdão por parte do agente, a quem acolhi e com quem me sinto verdadeiramente reconciliado. Depois disso, o tratamento penal da questão ficou moralmente vedado, embora juridicamente seja possível.

AnotE - Os membros da Pastoral Carcerária, pela natureza do trabalho que realizam de luta pela garantia dos direitos humanos de pessoas encarceradas, em algumas ocasiões sofrem ameaças desta natureza. Apesar disso, o que os mantêm firmes em seu trabalho?
Igor Barreto - “Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e me siga.” As palavras de Jesus são claras. Seu exemplo e sua vida são a motivação profunda de tudo quanto a Pastoral Carcerária faz. Isso deve estar claro para cada agente de pastoral.

AnotE - Você e a Pastoral Carcerária tem recebido manifestações de apoio de diversas instituições ligadas à Igreja Católica e da sociedade civil organizada. Na sua avaliação, para além destas instituições que historicamente são defensoras dos direitos humanos no país, há um amadurecimento da sociedade brasileira para a importância da garantia destes direitos?
Igor Barreto - Não. O que há, em geral, é a condenação sem julgamento, o preconceito sem piedade, a rejeição sem abertura, o medo sem remédio. O que se sente em geral, ao menos quanto percebo, é um apoio da população às ações violentas para solução de conflitos. A audiência de programas policiais denota isso. A eleição para o legislativo estadual e municipal de representantes do povo que reproduzem a violência indica isso. A ausência vergonhosa de mobilização por que passam atualmente as entidades de direitos humanos, no Ceará ao menos, aponta para o enfraquecimento da temática. O entendimento estreito do que sejam os direitos humanos, a ampla e difundida ignorância sobre sua natureza e conteúdo condenam todos nós a reproduzir o discurso de intolerância, de quem imagina resolver a violência apenas com polícia, viatura, arma e munição. As reformas legislativas que alteram e agravam as penas são respostas equivocadas colhidas no calor dos eventos e que só ferem ainda mais o direito de todos à segurança pública, que nem somente nem principalmente se resolve pela atuação policial ou legislativa.

AnotE - O que você destaca como a maior qualidade do trabalho realizado pela Pastoral Carcerária no Ceará?
Igor Barreto - A esperança na reconstrução da própria história e a fé profunda na mudança de vida, aliada à caridade, que sente pessoalmente a dor do outro, as três – fé, caridade e esperança – são as maiores qualidades do trabalho realizado pela Pastoral Carcerária.

Fonte: ANOTE - Agencia de Notícias Esperança - 10/07/2009

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