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14 de jul de 2009

A voz dos presos

José Roberto Borges
(Compositor, artesão, parapsicobiografista)
Apartheid humano invisível

Meu soberaníssimo Deus, Todo Poderoso, isso é um inferno que não desejo para ninguém, pior que a primeira ou a segunda guerra mundial. Muito além das cortinas silenciosas, alguém que não tem socorro, não é rico, branco, olhos verdes, cabelos louros, e sim um afro descendente brasileiro.

Quase perco a vontade de acreditar que poder é querer, e vencer é conquistar aquilo que achamos impossível. Ainda luto pelo meu patriotismo.
Estamos ou eu me encontro no meio de uma guerra civil que ninguém quer sentir ao vivo e a cores. É um verdadeiro direito de não existir direito. Tento não ver ou finjo que o Brasil é um país de todos. A nossa gente não parece ser nunca minha gente. As famílias, cidades, estados, políticas, miscigenação, igrejas, coletivismos, reliogismos, instituições sociais não estão adiantando tanta coisa assim.
Nessa geossocio geneoliticografia incluo minha arqueobiogeneonomico, afro asiático, e ainda sou não sei quem?
Negro, órfão, pobre, autista, interiorano, discriminado, marginalizado, indivíduo excepcional, especifico, vitimado em segregação. Porém, simpatizante superador nato num sistema de ninguém que vão dando 10 passos à frente e 1000 passos para trás.. Então, o que faz a cidade, estado e país para mim?
Sou mais componente real que não merece um estado, não convenço que existo neste solo latinoamerobrasiles. Violências que superam até mesmo o nazismo, fascismo ditatotial, inquisivitorismo. 509 anos coloniais de tragédia.
Nunca seremos o que julgamos ser. O que adianta todas as riquezas se continua a nossa miséria humana? Quem são os bilionários sendo que nada resta, tudo não passa de ilusão e vaidade?
Por que um mendigo não pode também ser um ser?
Melhor nunca ter nascido num mundo caótico que ser o próprio infanto geneogrinocio do holocausto? Não acredito mais em nenhuma superação patriótica, cultural quando o tema é o debate do processo de miscigenação brasileira.
A nossa herança parece mais uma tragédia do que uma experiência dos deuses, talvez por efeitos colaterais “luso negro indígenas”. Eu mesmo me interrogo: sou causa ou efeito num gigante desgosto fisiológico?
Nunca na minha cidade do meu país fui estado presente. No meio de muitos, todo mundo, sou “minasgeraisense”. Será que meu próximo pesadelo é terminar em um asilo? Ser mais um vez lixo social em minha própria pátria?
Pense no que é amor além desse caos! Desse fel eu dispenso troco. Uai, que nada! Coisas demais para um superador num sistema marginal do absurdo. Dane-se o Estado, é tudo ilusão no universo. Viva a democracia sócio racial brasileira! As lutas e lutas de quem não está para regredir. Ainda sobre sarjeta, não vou acontecer por nada.
Eu não gosto do meu nome, pois é como se fosse o reflexo de quem mais foi um oportunista pra tirar proveito com a prostituição do meio social. Um cotidiano conflituoso, ambiente familiar onde há bebidas alcoólicas e brigas entre vizinhos, problemas com polícias, agressões contras mulheres, agressões morais e físicas de irmãos contra irmãos, filhas contra mãe.
Uma vez, quando ainda era criança, presenciei um cidadão apontar uma arma na direção de sua mãe, só porque ela deixou um balde dentro do tanque de cimento. Não sei o porquê de tanta desgraça, e eu no meio desse caos sem saber como expressar ou reagir.
Ainda não sei quem são meus parentes biológicos. Fui criado a revelia, em tratando-se de registro, cadastro escolar, fase infanto adolescência no país de todo mundo. Será que alguém acha ser fácil dar a volta por cima dos obstáculos? Causa uma indignação extrema todas as injustiças que tornaram mútuas cicatrizes nesse apartheid humano invisível.
A civilização humana não é tudo que aparenta ser. Não sei onde a sociedade brasileira quer chegar.
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* José Roberto Borges é detento na cadeia pública de Cataguases. É escritor assíduo do jornal Recomeço. Tem um estilo contundente e criativo ao descrever o sofrimento e abandono que viveu até vir parar dentro de uma prisão.

Um comentário:

  1. O seu jeito timido e contestador calado de um mundo que sequer foi dado o direito de ter uma mãe.
    Incrivel em quase 50 anos nunca tinha pego uma certidão de nascimento sem o nome da mãe, foi quando depois de meses tentando localizar seus documentos, que chegaram de uma entidade do RJ que pude verificar este fato para mim inedito. E o curioso que ele agora quer tirar o nome do seu "pai" de criação da certidão, eu disse que iria verificar isso juridicamente.

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