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19 de jul de 2007

Página do Kllotild

Edição 133 - Recuperando de Leopoldina
PÁGINA do Klotild Guimarães Pinto

Meu corpo esta preso, mas a minha mente não

Viajo para lugares que estive e por aqueles que quero estar. Minhas idéias não correspondem com os fatos e a realidade que fui criado? Humildade, religião, fé e força de vontade, solidariedade, perdão, ouvir e expressar. Pessoas que não têm fé, religião, idéias são humildes solidárias comedidas e ao mesmo tempo outros que falam de fé de cumplicidade de solidariedade, chegam até ser arrogantes em nome de Deus. Se Deus é um só porque há separação, discriminação, desconjuntura e desunião?
Vejo pessoas que falam de amor, sem ter amor, que falam de paz e fazem guerra, de solidariedade e não são solidários. Do perdão e são incapazes de perdoar. E se escondem atrás de palavras pra não mostrarem quem realmente são. Hipocrisia, demagogia?
Se o evangelho é um padrão de vida, como vive o hipócrita? O que alimenta a fé? O ódio disfarçado em amor? A superioridade disfarçada em humildade? Devemos ser um diante de Deus e outro perante o homem? Se fizermos cada um a nossa parte, assim seremos a imagem de Deus. Se o amor é generosidade, devemos amar uns aos outros. Piedade! Perdão pra mim pra quem não sabe perdoar.
Mas não é o que acontece, dizemos que amamos a Deus e odiamos nosso próximo.

Reflexão

Sempre quis cuidar, mas não queria cuidados, sempre olhei, mas não via.
Sempre pensei no plural, mas não houve nós.
Sempre estive perto, mas criou-se a distância.
Vou cuidar, dividir, somar e não subtrair.
Ganhou-se um tempo, perdeste tempo demais.
A arrogância sucumbiu à generosidade, o coração congelou-se.
O amor trancou-se numa cúpula.
De que vale ser autêntico se há a pirataria?
Como uma árvore rara fugindo da moto serra, devastando todo o sistema, tornando a vida uma queimada, respirar o ar poluído da solidão e viver nesta floresta de sentimentos vazios.
Valorizar o que se tem antes de se poder dizer obrigado, pedir desculpas e perdão.
Os olhos são capazes de enxergar muito além do que os lábios podem falar.
As mãos abraçam mais rápidos do que os seus passos.
Ter e valorizar, doar e receber, sentir e demonstrar atitude e emoção, ação e sutileza. Que o amor precisa de um tempo pra doar e receber carinho.

O maior dos descasos

Eu já vi várias situações de descaso social, pela televisão, pelos rádios e pelos jornais. Descaso do mundo das autoridades e da sociedade. Descaso com a fome, com as guerras, com a natureza, com o clima e com a própria vida.
No entanto, o maior dos descasos, eu não só vejo como estou vivendo. O descaso com o sistema carcerário da minha cidade. A falta de diálogo entre os detentos e o poder judiciário, a falta de instalações que causa a superlotação, a falta de incentivo para que nos recuperemos, o desempenho da defensoria pela falta de condições que leva ao acúmulo de processos em que muitos já venceram as suas penas, a sua condicional, o semi-aberto e o aberto e que ainda permanecem detidos por não ter como e onde cumprir os seus benefícios.
O descaso com a nossa alimentação, com a nossa dignidade que nos revolta ao dormir amontoados. Tem que se rever, olhar mais, estudar um meio de se esvaziar as cadeias.
A APAC, a defensoria, o judiciário e a promotoria têm que se unir num mutirão para devolver os direitos, os deveres e a dignidade. Grupo como a APAC que se une, se interessa, é a minoria fazendo a sua parte, um exemplo que deveria ser seguido pela maioria.
Detentos que são esquecidos sobre o monte de processos, que não têm nenhuma informação, que esperam seus recursos que às vezes levam meses impossibilitando-nos de qualquer benefício. Tem que se mobilizar, sensibilizar os juizes, promotores, defensores, OAB, direitos humanos e todos os órgãos ligados à justiça para que se revejam as condições, as condenações e a estrutura em que se encontra o sistema carcerário.
O sistema carcerário não é uma instituição falida, só há um grande descaso e incompetência para organizá-lo. Apesar de sermos tratados como excluídos, nós não somos. Somos pessoas que merecem o direito de reintegração. Eu não sou mestrado em direito penal, sou apenas mais um detento que vive neste sistema que às vezes funciona, outras não. O que eu gostaria é de me expressar e ouvir para que se encontre uma solução e no futuro que este diálogo torne melhor a nossa integração na sociedade.
Pois não adianta o descaso, fechar os olhos, tampar os ouvidos e nem se calar. Tudo aqui é uma realidade, que tem que ser revista com clareza, seriedade e justiça.

ARTIGO 157

Rapaz bem aperfeiçoado e de boa família, bem educado e com família constituída, sorriso, choro e com boa conduta.
Na mão, uma arma e nos ouvidos crianças doentes de fome a chorar.
Despensa vazia, contas a pagar, filas enormes para no médico ir consultar.
Na mão uma arma, na mente uma idéia como cachorro louco, alguém irá pagar.
Culpa a sociedade ou culpa a si mesmo? Falta de condições ou de planejamento? Atrás da fita, na cara da vitima, um 38 resolverá?
E quando voltar pra casa alguma coisa terá pra se sustentar. E se não voltar?
Uma vez por semana a família poderá visitar. E se a morte encontrar nesta tentativa de sobrevivência, com quem poderá contar? A vida é difícil. Mas não se pensa em carregar consigo o teu artigo, a sua nota de culpa, as marcas do preconceito e as dificuldades da vida. Nem tudo é motivo pra se cometer 157, mas há outras saídas pra sustentar a família? O crime não compensa quando se cai na cadeia? A liberdade vale mais do que o bolso e a barriga cheia? Há uma escolha? Uma chance? Na recuperação de tantos que vêem o mundo com ódio e descaso?

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