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20 de jun de 2009

Textos dos detentos

Tiago Junior Procópio

A história da minha família
Depois que fui preso, pude perceber o grande amor que ele sentia por mim...

O meu pai teve uma infância difícil, pois com dois meses de vida ele perdeu sua mãe e seu pai teve que ser mãe e pai ao mesmo tempo. Cuidou de seis filhos.
Talvez por isso não tivemos tanta intimidade um com o outro. Mas depois que fui preso pude perceber o grande amor que ele sentia por mim. Às vezes brigávamos por coisas fúteis, mas ele sempre me amou. Por falta de um amor de mãe, crescendo quase que por conta própria, faltou aquele diálogo, aquela mansidão com as palavras, mas sempre querendo o meu bem. Hoje posso ter isso e ele também, somos amigos e companheiros. Aprendemos juntos uma lição de vida.
Através do cárcere foi quando rolou aquele abraço, aquele aperto forte de mão, pela primeira vez olho no olho, onde se dizia tudo “Pai, eu te amo”, “Filho, você é tudo para mim”.
Foram muitos fatos que marcaram a nossa história. Mudamos de cidade, casas, fomos morar na roça, em casas caindo os pedaços, muitas dificuldades. Enquanto brincava com um carrinho de carretel ou uma bolinha de plástico cheia de papel, meus pais lutavam dia a dia, sol a sol. Dois grandes guerreiros.
Minha mãe, para ela não existem palavras, nem atos. Para ela, só admiração, admiração, admiração...
Outro fato que me marcou foi quando meu avô teve câncer e eu, meu pai e minha esposa cuidamos dele. O médico determinou o tempo de vida que ele teria, foram idas e mais idas para o hospital. Eu passava as noites com ele no hospital, fui o único dos netos que o acompanhou do começo ao fim. Não me vanglorio por isso não, não fiz mais do que a minha obrigação, fiz por amor a ele. Pelos momentos que passamos juntos no quintal de sua casa debaixo do pé de laranja, vendo o jogo do Flamengo.
Quando olhava para ele ali, deitado naquela cama, frágil como um bebê, querendo ir para casa cuidar de suas plantinhas, eu dizia “O senhor vai sim, vô”. Até o último suspiro olhei para ele e vi meu querido avô fechar seus olhos e então eu disse “Até mais, meu avô, vá em paz.”
E meu pai ao seu lado desesperado, chorando muito, pois sempre foram muito unidos. Não tinha um dia sequer que meu pai não ia visitá-lo, limpar o quintal, matar aquela saudade de pai e mãe, porque era isso que meu avô era para ele, pai, mãe, herói, que sozinho cuidou de seis filhos. Hoje meu pai mora na casa de meu avô e sempre vem me visitar.
Não tem como falar da história da minha família sem falar da minha esposa, presente em todos os momentos da minha vida, na alegria e na dor, em todas as dificuldades que marcaram a minha vida.
Outro momento marcante para mim foi o nascimento da minha primeira filha. Fiquei o dia inteiro esperando ela nascer, ai o médico falou que só seria a noite. Eu já estava cansado e resolvi ir embora. Fui para a rodoviária, quando cheguei lá olhei para o hospital, meu coração bateu tão forte que não agüentei e voltei correndo. Quando cheguei na maternidade perguntei a enfermeira e ela me disse que minha mulher havia tido a criança e disse “daqui a pouco sua filhinha está descendo”. Chorei feito aqueles bebês que estavam ali. Pela primeira vez meu coração bateu forte, mas bateu como um coração de pai. Depois veio meu garoto, meu varão.
São momentos marcantes, felizes, tristes, mas são as histórias da minha família que ficaram registradas para sempre.
* Detento da Cadeia Pública de Cataguases - Texto da edição 155 do Jornal Recomeço impresso, que sairá 2ª feira, dia 22/6.

Um comentário:

  1. Tu és um irmão de luz... grande estória a sua. Fé e muito equilíbrio sobre seus trajetos. Luz de verdade!

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