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10 de out de 2008

Desabafo da professora Beth

A Burocracia tornou-se a forma moderna de despotismo (Mary McCarthy)

Elizabeth Almeida é professora do projeto EJA dentro da cadeia de Cataguases e agente voluntária na APAC* de Leopoldina. Há anos enfrenta todas as pedras no caminho (riscos, resistência das autoridades, sacrifícios físicos e financeiros, etc) para estar lá, atrás das grades junto com os presos, cumprindo sua missão de "tranformar vidas", resgatar o potencial humano de homens e mulheres enquadrados na seletividade do nosso sistema penal.
Aí chegamos ao que deveria ser o mais fácil, o mais simples: fazer a inscrição dos alunos.
Engana-se, leitor!
Chegamos à pedra intransponível: a burocracia.
Depois de toda essa luta, com os alunos preparados, cheios de sonhos e intenções com a possibilidade de obterem seus diplomas dos estudos que não puderam ter na época certa, são barrados pela força de um papel, de um número. Falta CPF para a inscrição.
A professora luta, corre, esperneia, vai em mil lugares, telefona, procura autoridades. Mas o papel tem a força de um tsunami. E ouve NÃO, NÃO, NÃO!
Sua majestade, o PAPEL!
A facilidade com que os presos são marcados por um número de processo criminal acaba quando se trata de obter um número para fazerem os exames supletivos.
Este país é marcado pela burrice: se o curso é para jovens e adultos, ou seja, estudantes fora da faixa etária do curso, como enquadrá-los nas exigências para os alunos regulares?
Segue o desabafo da professora Beth. Se alguém neste país souber como se vence um papel, aceitamos conselhos e sugestões.
"Estou enojada disso, pois de fato a burocracia é um sistema tão poderoso que aniquila todos os direitos individuais e coletivos.
Fui impedida de fazer inscrições para os Exames Supletivos, que ocorrem semestralmente, de pelo menos 18 recuperandos da APAC de Leopoldina e dos detentos da Cadeia Pública de Cataguases porque eles não tinham o tal do CPF.
Liguei para a agência do correio, onde o Sr. Dimas, embora tenha me atendido com muita urbanidade, disse que não bastava ter a certidão de nascimento, tinha que ter o título de eleitor. Fica mais complicado ainda, pois todos sabemos que preso não vota.
Enquanto a gente faz um esforço hercúleo para tentar mudar o rumo da história de vida de alguns através da educação, vem o estado com sua máquina mortífera da burocracia, com sua indiferença e arrogância, detonar todo um processo de construção de cidadania e dignidade.
Tentamos pedir prorrogação do prazo das inscrições, mas foi em vão, assim como pedimos abrir mão desse documento, já que a maioria tinha carteira de identidade, mas também foi em vão.
Concluo: é assim que de vão em vão a cadeia enche o "papo".
* APAC - Associação de Proteção e Assistência ao Condenado CLIQUE AQUI

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